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Eugenio

O Violão Sarado

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Vocês concordam com a visão do Nassif de que o violão brasileiro virou uma correria?

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O violão sarado

Luís Nassif

Folha de São Paulo. Brasil, abril de 2004.

Francisco Alves, o Chico Viola, cantou ao som do "meu plangente violão". Historicamente, o violão se consagrou por ser o instrumento lírico por excelência. Nele, o bom intérprete modula o som de várias maneiras, controlando a intensidade da vibração das notas tanto com a mão que fere a corda quanto com a que sustenta o som, ao contrário do piano, em que a intensidade da nota depende apenas da força da batida e dos pedais. Foi com a interpretação lírica que Andrés Segovia transformou o violão no instrumento mais popular do século 20. Foi assimilando o lirismo das serestas que Villa Lobos revolucionou a produção para violão com seus choros e prelúdios.

Foi com a pegada firme, sentida, com o uso das pausas, dos crescendos, que João Pernambuco e Baden Powell projetaram o violão brasileiro, Agustin Barrios e Antonio Lauro consagraram o violão latino-americano, Julien Bream desenvolveu o lirismo britânico, Barbosa Lima, Marcelo Khayat, irmãos Assad e Fábio Zanon conquistaram o mundo do violão erudito, o peruano Jesus Balbi, que capturei outro dia pela internet, converteu-se em um dos maiores intérpretes de Lauro e Barrios.

Nas duas últimas décadas, porém, observou-se a decadência do violão. É quando surge a geração dos violonistas "sarados", intérpretes que colocam a rapidez como virtude única, martelando o violão sem modulação, sem nuances, muitas vezes até sem a limpeza que caracteriza os grandes intérpretes. E passam a ser o lado mais visível do violão na indústria cultural.

No violão clássico essa síndrome do "sprinter" tem nos espanhóis irmãos Romero e em Manuel Barrueco os representantes mais conhecidos. Do lado popular, pior ainda, porque as novas escolas nem respeitam a limpeza que deve caracterizar os grandes intérpretes. E não se confunda o modo de tocar do cigano Django Reinhardt com esse rasqueado desconexo de muitos dos intérpretes atuais, dos quais o nome máximo é o cigano Paco de Lucia, rápido e criativo nos anos 80 e, depois, gradativamente, apenas rápido e insuportável.

Em geral a síndrome do malabarismo costuma atingir os jovens. Foi assim com Baden em suas primeiras gravações ao vivo. Rapidamente vai amadurecendo, crescendo sem parar em todo seu período brasileiro e, depois, na Europa, continua crescendo até se transformar em um dos maiores da história. O malabarismo rasqueante volta na fase final, da decadência.

No Brasil a praga cigana de Paco de Lucia acabou vitimando dois dos maiores talentos da história do violão brasileiro: Raphael Rabello e Yamandu Costa. Conhecedores de todos os sons, insuperáveis nas serestas caseiras, sem a busca sôfrega de aplausos que caracteriza os shows, renderam-se a um padrão de sucesso fácil, superficial, de um estilo rápido-sujo, com rasqueados insuportáveis, som sem matização, sem pausas, sem interpretação que arrancam aplausos dos leigos, mas não os transformam em cultivadores do instrumento.

Natalino Lima, o solista dos Índios Tabajara, era tão ou mais rápido que os maiores, mas com interpretação, com limpeza, um violonista em estado puro. Na convivência que mantivemos, Raphael me contava sobre como os violonistas espanhóis se encantavam com o estilo e a pegada do violão brasileiro. Nosso estilo é o da interpretação, da capacidade de tirar matizes diversas do instrumento, de fazer o violão gemer sob os dedos do virtuose, como a mulher sob controle do amante experiente.

Mas, como dizia outro dia um amigo meu, talentosíssimo, os "sprinters" atuais esqueceram-se do violão e passaram a copiar o piano. Buscam versões de obras pianísticas para jogar sua velocidade fria. Se é para tocar como piano, que viva o piano autêntico. É por isso que o piano vem revelando gênios completos, como André Mehmari, e o violão, gênios que não se realizam, como Yamandu.

O que irrita não é o fato de se verem presumíveis falsos talentos consagrados. Pelo contrário, é o de ver tantos gênios do violão desperdiçando seu talento com essas miragens.

Quero de volta meu violão brasileiro!

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Não, não concordo. Pelo menos não completamente.

Acho que exagerou um pouco.

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Eu discordo totalmente.

Aliás, esse Nassif...

Do que será que ele está falando? O violão a que ele se refere não é o violão que eu conheço, ao qual tenho me dedicado nos úlimos 35 anos.

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Sei lá. eu concordo em parte sim, mas acho que o texto é pra ser entendido de uma forma menos direta. Esqueçam os nomes que ele citou por exemplo... Sei lá. Gosto do Nassif. Conversamos muito e não sei se a idéia dele foi fazer "uma lista dos assassinos" do violão. Longe disso... Mas essa parte da correria eu até concordo um bocado.

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Pois é, fui econômico.

Eu não entendo essa mania apocalíptica.

Como se só existisse o estilo do Yamandú de tocar. E não digo pejorativamente, não, mesmo que não se goste desse tipo de violonismo, tem TANTA coisa diferente pra se ouvir.

E mesmo dentre os virtuoses, os "sprinters", como ele chamou, tem gente que consegue tacar o dedo e tirar muita música. Ta aí o Pennezi, inspiradíssimo. O próprio Yamandú me parece que vem amadurecendo nesse sentido. Enfim, as possibilidades são muitas e se não me engano li até o Zanon, que não deve ser nem um pouco fã de música tocada só no pau, sem interpretação, dizendo que essa geração de violonistas populares de hoje é das melhores.

Outra coisa, falar mal do Paco deveria dar pena de morte! hehehehe...

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O Nassif é um ótimo articulista de música e economia. Até entendo a história da correria, mas ele construiu o argumento em cima de dizer a turma de antigamente tinha mais sensibilidade musical que o pessoal de hoje em dia, que foi "corrompido" pelo malabarismo fácil e decadente.

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