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Eugenio

Violão Brega

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parabens.gif Detesto escrever só pra dizer isso, mas esse post foi incrível.

Incrivel foi a minha sensação de que a grande ironia do post do Alvaro tenha sido a tentativa de demolir estereótipos atraves da contrucao de outros estereotipos, a famosa troca de seis por meia duzia.

O primeiro estereotipo foi a mencao a Globo e a Folha de Sao Paulo. O artigo nao veio de lá e mesmo que tivesse, isso nao deveria fazer diferenca. Desnecessário mencionar que reproduzir artigos ou opiniões de outras pessoas não se traduz em endosso automático.

A leitura do dilema tradicao x modernidade foi atribuida ao anacronismo da "esquerda intelectual" e "compositores da internacional socialista" (dois estereotipos), quando se trata, na verdade, de uma base comum do pensamento artistico. Basta ver o Hamilton de Holanda falando em "pé no passado, coracao no presente e a cabeça no futuro".

Relativizacao cultural acaba sendo atribuida a "idiotas" que defendem comparacoes entre iê-iê-iê e Beethoven e argumentam que a qualidade é algo meramente relativo. Só que o outro lado da relativização seria o absolutismo, que tende a retratar a musica como uma piramide, onde se tem uma larga base de producao de baixo nivel, e ai a gente vai subindo e afunilando, passando por generos intermediarios ate chegar a uma musica de alto nivel no topo dessa piramide.

O que fica de fora dessa construcao é que o conceito de qualidade musical nao é absoluto, então a base fica insólita. Na culinaria, comida estragada pode fazer mal a quem come, independente de ser gourmet ou de boteco, mas em musica as coisas nao funcionam dessa forma e os parametros de avaliacao acabam sendo, a gente goste ou não, pertinentes a cada estilo; isso se chama contexto. Comparar diretamente funk com Bach, de fato, nao faz o menor sentido e jamais foi a proposicao do topico.

Sei não, acho que também que os próprios parâmetros podem ser alvo de crítica. Nesse caso eu fico com o Flô: "Duvido em essência que a genialidade em arte não passe igualmente pela opção quanto ao próprio âmbito de atuação linguística do artista."

Tudo pode ser alvo de crítica, inclusive os parâmetros, que são muito movediços. Mas nao existem regras que estabelecem que uma musica com 5 acordes naturais é artisticamente inferior a uma que tenha 50 dissonancias organizadas matematicamente.

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Tudo pode ser alvo de crítica, inclusive os parâmetros, que são muito movediços. Mas nao existem regras que estabelecem que uma musica com 5 acordes naturais é artisticamente inferior a uma que tenha 50 dissonancias organizadas matematicamente.

Eu também não acredito na complexidade de papel, mas se os parâmetos não se sustentam, se são pra lá de duvidosos, tanto faz a música ter 5 ou 50 acordes. Uma música complexa julgada por um parâmetro equivocado também não tem validade artística.

Acho que é nesse sentido que se pode criticar coisas como tal do breganejo. Não acho que devemos aceitar que vozes ergarniçadas possam berrar durante a música sem que haja uma justificativa musical pra isso, pelo único motivo de ser uma tradição, por haver parâmetros de julgamento que as aceitam. Como vc disse, esses parâmetros também podem ser alvo de crítica.

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Amon, você pode julgar e estabelecer os critérios que quiser, mas isso é bastante individual e em muitos casos pode ser um exercício de futilidade. Não existe órgão regulamentador da música, ninguém tem autoridade pra estabelecer o que é bom ou ruim, embora em cada esquina você encontre alguém querendo assumir esse papel.

O que eu vejo é territorialismo e testosterona tentando investir-se de autoridade, e isso vem de todos os lados. Muita gente se sente incomodada com a presença grande ou pequena da música X ou Y, acho até meio insano pensar, por exemplo, que Amado Batista rouba espaço de Chico Buarque.

A gente fala em pluralidade e isso deveria ter implícito como princípio básico a tolerância e o respeito mútuos. Se o cara quer ouvir o estilo Z, tudo bem, eu não tenho interesse nem mesmo em criticar. E é ainda mais improdutivo querer criticar sem ser criticado de volta, ficar fazendo comparações entre estilos díspares, ou analisar academicamente estilos que não têm intenção de ser analisados ou que teriam que ser compreendidos por uma outra ótica.

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Ainda acho que analisar a qualidade de uma composição é procedente, quando se toma por base parâmetros universais que estão explícitos na história da música e sua evolução, mas daí a taxar a intenção de quem compôs pode ser uma coisa bem complicada.

Pode ser que qualquer um dos grandes compositores do período clássico em alguma de suas obras, estivesse apenas querendo encher o seu bolso de dinheiro. Então, apesar de o resultado da composição ser admirável, a intenção poderia não ser tão nobre assim. O que quis dizer com a alusão ao Zezé de Camargo (Deus livrai-me disso) é que o resultado sonoro pode ser uma porcaria, mas talvez o sentimento não o fosse.

Dizer que uma música é brega é classificar a partir de um contexto cultural, só acho que não existe "sentimento brega", isso seria medir as experiências emocionais do outro como se sua régua fosse a correta e isso fosse possível.

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As intenções de quem faz a música não fazem a menor diferença. Mozart pode ter escrito a maioria de sua obra por encomenda, mas isso não faz a música dele soar nem insincera, nem brega, e principalmente não é ruim. Quem tem de se preocupar com a sinceridade dos sentimentos do Zezé de Camargo é a mulher dele. Eu me preocupo com a música, que é ruim de doer, e, além de ruim, para os meus ouvido é também brega, no sentido pejorativo.

Música clássica também está cheia de coisa brega. Quase toda a ópera verista é brega, mas Cavalleria Rusticana é, além de brega, ruim em vários momentos, se comparada a Puccini, que é muito brega mas quase nunca ruim.

Kitsch ou brega (na definição paulistana da palavra) é, por definição, algo que, dentro do seu universo cultural, é calcado em estereótipos e clichês, realizada com um exagero calculado, com o intuito de extrapolar a reação de quem aprecia. Puccini é brega, Tchaikovsky frequentemente é brega, Beethoven às vezes é brega, mas Bach e Mozart não conseguiriam ser bregas nem se tentassem. Brega é o uso que Salzburg faz da música de Mozart, bombons, hotéis, orquestras tocando com perucas e roupas de época com relógios de pulso mal disfarçados.

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A minha dificuldade reside nesses parâmetros universais. Que parâmetros seriam esses? O Amon sugere que a gente não deveria aceitar vozes esganiçadas apenas pela tradição, mas eliminar uma tradição é eliminar um contexto, e isso é inaceitável quando se quer falar em música.

Fazendo uma analogia, a música chinesa é cantada com vozes femininas esganiçadas, mas nesse caso pouca gente se dispõe a criticar por entender que existe uma enorme fronteira geográfica, cultural e étnica, além da falta de conhecimento de causa. Só que essas mesmas fronteiras musicais podem existir com os vizinhos, com os parentes, irmãos e a esposa. Mas como a gente precisa interagir com essas pessoas, as tensões surgem.

Eu não vejo a intenção de ganhar dinheiro como algo que atrapalha. Se o cara recebeu uma encomenda para escrever uma obra romântica, o propósito da música acaba sendo esse, não a transação financeira. Haendel é um bom exemplo de compositor que escrevia por dinheiro e fama, e cumpria a tarefa com esmero.

As intenções de quem faz a música sempre vão ter um peso, embora eu concorde que elas podem acabar sendo sobrepostas pelo entendimento geral dos apreciadores. Se o autor fez algo com a intenção de ser dramático e foi entendido como comédia, isso não anula a intenção original. Muita gente ouve música clássica com intenção de dormir e relaxar, mas isso não altera a intenção original do autor, que continua sendo válida. Essas distorções acontecem o tempo todo.

Clichês e estereótipos fazem parte de todos os estilos musicais, o flamenco é um bom exemplo de estilo que usa e abusa disso. Alguns consideram como arte sublime, outros consideram como gritaria e breguice.

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As intenções de quem faz a música não fazem a menor diferença. Mozart pode ter escrito a maioria de sua obra por encomenda, mas isso não faz a música dele soar nem insincera, nem brega, e principalmente não é ruim. Quem tem de se preocupar com a sinceridade dos sentimentos do Zezé de Camargo é a mulher dele. Eu me preocupo com a música, que é ruim de doer, e, além de ruim, para os meus ouvido é também brega, no sentido pejorativo.

Música clássica também está cheia de coisa brega. Quase toda a ópera verista é brega, mas Cavalleria Rusticana é, além de brega, ruim em vários momentos, se comparada a Puccini, que é muito brega mas quase nunca ruim.

Kitsch ou brega (na definição paulistana da palavra) é, por definição, algo que, dentro do seu universo cultural, é calcado em estereótipos e clichês, realizada com um exagero calculado, com o intuito de extrapolar a reação de quem aprecia. Puccini é brega, Tchaikovsky frequentemente é brega, Beethoven às vezes é brega, mas Bach e Mozart não conseguiriam ser bregas nem se tentassem. Brega é o uso que Salzburg faz da música de Mozart, bombons, hotéis, orquestras tocando com perucas e roupas de época com relógios de pulso mal disfarçados.

:parabens:

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A minha dificuldade reside nesses parâmetros universais. Que parâmetros seriam esses? O Amon sugere que a gente não deveria aceitar vozes esganiçadas apenas pela tradição, mas eliminar uma tradição é eliminar um contexto, e isso é inaceitável quando se quer falar em música.

Não dá, na verdade, pra estabelecer regras universais pra definir o que é bom ou o que é ruim porque passa pela opinião pessoal de cada um, ainda que dentro de um parêmetro definido. Mas acho que dá pra se estabelecer parêmetros universais, ou ao menos tentar chegar neles.

Eu defino música como algo que se faz com elementos como timbre, altura, intensidade e duração. Willy Corrêa até destaca outras características do som, que ele chama de parâmetros composicionais, como densidade, montagem e direcionalidade. Se um contexto adiciona outros elementos a-musicais, essa nova "música" ao menos, ao meu ver, deveria ter outro nome. Se uma tradição faz o mesmo, também daria outro nome. Trilha sonora, pra mim, é música e mais outra coisa, e é analisada por parâmtros que levam em consideração essa mistura. É como eu penso.

Uma tradição que tem vozes esganiçadas como um padrão recebe de mim o mesmo tratamento. Se quer ser vista como música, os elementos tem que se justificarem musicalmente, e não porque alguém fez assim antes e a galera gosta.

A gente pode jogar e tentar entender as regras de qualquer jogo. Mas música a gente pode ao menos discutir o que ela é.

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Uma tradição que tem vozes esganiçadas como um padrão recebe de mim o mesmo tratamento. Se quer ser vista como música, os elementos tem que se justificarem musicalmente, e não porque alguém fez assim antes e a galera gosta.

Amon, eu entendo essa busca da justificativa, é uma forma mais do que válida, é bastante intelectual, mas não é a única. Essa proposição norteia a música clássica, o compositor monta uma estrutura e nela vai desenvolvendo elementos que, no seu entender, se justificam dentro dessa proposição. Um exemplo que me vem à mente é o Estudo No 1 do Villa-Lobos, com aquela parte central cromática, onde ele trabalha o violão de maneira idiomática, ele fixa a mão esquerda no que a turma do jazz chama de "chord shape" e desenvolve uma seção inteira com base nisso. Maravilha!

Só que muitas manifestações artísticas se dão de forma intuitiva ou casual, não requerem nenhum tipo especial de justificativa e funcionam exatamente na base do experimentar algo que acaba agradando ao público e pronto. Tem um CD do Hamilton de Holanda onde ele comenta no encarte sobre a idéia por trás de cada faixa, a quem dedicou, se tinha algum detalhe técnico, etc; em uma delas, ele simplesmente diz que queria fazer uma música bonita e mais nada.

A gente pode falar de timbre, definir o que é uma voz esganiçada, mas dizer se ela se justifica ou não em certo estilo, se é feia ou bonita, etc, são coisas que entram no campo do julgamento estético, e aí não existe regra universal, a leitura depende do contexto.

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Só que muitas manifestações artísticas se dão de forma intuitiva ou casual, não requerem nenhum tipo especial de justificativa e funcionam exatamente na base do experimentar algo que acaba agradando ao público e pronto.

Mas em nenhum momento eu excluí a possibilidade de se fazer música de forma intuítiva. Eu até acredito no contrário, que mesmo uma composição super estruturada tem algo forte da intuição do compositor. É uma idéia que eu aprendi com o Marlos Nobre, que é um compositor de obras sinfonicas.

A justificativa musical não precisa ser escrita como em "arte conceitual", nem mesmo intencional. Ela existe em qualquer obra de arte musical, inclusive nas intuitivas.

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